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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Pedidos

Naquele tempo
tinha sempre
farofa na esquina
e flores murchas
pela manhã.
Aquela comida era intocável
os santos poderosos,
mas ninguém de fora podia nomear  .

Naqueles dias
tinha uma força estranha na esquina  
e eu me equilibrava
no meio fio
o olhar devia ser desviado
de alguma dor forte
ou de algum pedido
tão intenso
quanto aquela combinação de oferendas
no caminho da escola
da feira
da vida
sujeita a tantos tropeços
lembrando a todos que acordam
que as dores espreitam
e cheiram a cachaça  
e atravessam a rua
pelo olhar rápido
e sentimento
de quem entende
de farinha e rosa vermelha.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Memórias

Eu ainda me lembrava
do seu gosto,
mas um dia tomei água
em um copo velho de plástico
daqueles
decorados
pelo tempo
com uns arranhados brancos.
Olhei bem
para aquelas marcas
no fundo
e senti todos os erros

[na garganta]

passava
aquela água turva
contrariando
a lição que decorei na escola
ela tinha cheiro
sabor
a cor vermelha do copo
contaminado
pela febre
do presente.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Os Homens Explicam Tudo para Mim, de Rebecca Solnit [1]


“A batalha contra os Homens que Explicam Tudo para Mim já espezinhou muitas mulheres – da minha geração e da nova geração que vem vindo, da qual tanto precisamos, seja em meu país, no Paquistão, na Bolívia ou em Java, para não falar das incontáveis mulheres que vieram jantes de mim e não tinham permissão de entrar no laboratório, ou na biblioteca, ou na conversa, ou na revolução, ou mesmo na categoria chamada humana”(pág. 22).

A partir da ilustração do termo mansplaining, quando um homem tenta explicar algo óbvio para uma mulher, Rebecca Solnit em Os Homens Explicam Tudo Para Mim (2017), tece todas as consequências advindas do lugar onde a mulher é posta: as violências sexuais e morte de milhares de mulheres em todo o mundo e a terrível negação desta situação pela “cultura do estupro” que agrava ainda mais a situação. Diante de casos específicos de violência em determinado ambiente a autora ressalta que as mulheres são orientadas a mudarem seus comportamentos, a ficar em casa, a esconder-se e nada é falado sobre educar os homens.
O livro evidencia que a preocupação das mulheres em sobreviver ao cotidiano acaba por tirar-lhes tempo e energia de criação e, utilizando o simbólico quadro de uma mulher pendurando no varal um lençol branco de Ana Teresa Fernandez, onde somente seus pés com sapato e salto aparecem, explica o interesse que há no apagamento da voz e do corpo da mulher; ela existe e não existe ao mesmo tempo, há intenção de que ela seja totalmente coberta, escondida, a partir de suas roupas mesmo, ficando dentro de casa ou em instituições quando tratada por louca ou histérica.
Rebecca Solnit trata de vários temas importantes nesta discussão: a questão do casamento igualitário, as culturas que exigem que um homem dê legitimidade à palavra de uma mulher, as denúncias nos escritos de Virginia Woolf e finalmente os movimentos sociais, as hashtags que trazem força às lutas assumidas pelas mulheres que já avançaram em suas reivindicações, mas ainda tem muito a conquistar.
Os Homens Explicam Tudo Para Mim é uma leitura importante para quem busca informações sobre o movimento feminista, pois passa por vários pontos fundamentais desta causa com lucidez; salienta que nem todos os homens se enquadram nestas características, mas devido aos que ainda pensam desta maneira retrógrada e ao mesmo tempo atual, uma mulher ainda não pode caminhar sozinha na rua.

“Tecer a teia e não ficar presa nela, criar o mundo, criar sua própria vida, governar seu destino, dar nome à sua avó assim como ao seu pai, desenhar redes e não apenas linhas retas, ser alguém que faz, não só alguém que limpa, poder cantar e não ser silenciada, tirar o véu e aparecer: é tudo isso que eu penduro no meu varal” (pág. 101).




[1] Os homens explicam tudo para mim/ Rebecca Solnit; imagens Ana Teresa Fernandez; tradução Isa Mara Lando.- São Paulo: Cultrix, 2017.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Disfarces

O papel onde escrevo este poema
está manchado
de gordura da borda da mesa,
são pequenas bolinhas
que o deixam transparente
e denunciam o pão
das tardes passadas .
Faço uma mancha de lápis
para disfarçar a manteiga
que escorreu rápida
antes dos meus dedos ágeis
passarem pela minha boca
ou pela sua
que sabe sempre
que não conseguirei esconder
todas as marcas.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Não tinha problema nenhum
a falta de talheres
para quem podia
comer com a mão
qualquer comida
sentada no chão
descalça
poesia
que escorre entres os dedos
lambuzados
pela possibilidade
de cada lambida.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Em meu sonho
eu recitava o Poema de Sete Faces
para alguém
e aquilo era especial
porque entre a gente
tinha uma ligação
que ultrapassa
o que se sabe
de cor
eu falava
emocionada
e pulava
os trechos esquecidos
sem parar
porque o que a gente sentia
juntava tudo
como aquela história
do vaso chinês
colado com nossa saliva
as palavras
que eu te dizia
eram as que restavam
e não havia
problema
entre os nossos olhares
...
as conexões
são os melhores poemas
desta vez
não conseguia falar tudo
mas você
no fundo sabia
que eu uma vez
já falei
o Operário em Construção
mentalmente
todinho
sem perder
uma
palavra
da sua língua.

domingo, 17 de setembro de 2017

Entrou na quitanda
e fez as compras
na saída
sem mais clientes
o dono foi tomar um ar na calçada
ela não podia olhar para trás
enquanto andava
o nó da calcinha
com elástico frouxo
se desfez
e a cada passo
curtinho
a calcinha
amarela
se mostrava
um pouco mais
o shorts não podia ajudar muito
[a esquina tão distante]
e a escassez
se exibindo

entre suas pernas.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Rumo

Penso em literatura
e me lembro dos cachorros:
eles gostam de rolar na carniça
saem para passear
e quando encontram
o que realmente procuram
como um acesso de loucura
se entregam
se ungem
se esfregam
[um lobo]
e de repente voltam
satisfeitos
com aquele cheiro
que pronuncia seu instinto.
Dizem que é uma proteção
vinda dos antepassados
[os lobos]
pois o cheiro da morte
afasta os predadores.
Meu amor pela literatura
só me traz
a ideia do cachorro
que rola na carniça
obsessão
procura
proteção
um lobo
[os lobos]
à espreita
algo que te defende
da vida.